2015-novidades sobre os sindicatos

AGUARDEM POSTAGENS SERÃO TODAS ATUALIZADAS.

sábado, 15 de novembro de 2014

A IMPORTÂNCIA DO TRABALHO PSICOPEDAGÓGICO DENTRO DA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR

A IMPORTÂNCIA DO TRABALHO PSICOPEDAGÓGICO DENTRO DA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR: A BRINQUEDOTECA


AUTORA: JOSSANDRA BARBOSA
RESUMO
Este trabalho consiste na comunicação das experiências de um grupo de estágio em Psicopedagogia Hospitalar do curso de pós-graduação em psicopedagogia clínica, institucional e hospitalar da Faculdade Mauricio de Nassau, na cidade de Teresina, no Estado do Piauí, Brasil onde foi realizado o projeto “Aprender Brincando” que teve como objetivo a revitalização da Brinquedoteca do Hospital e reflexão sobre a importância do trabalho psicopedagógico nas instituições hospitalares. O presente trabalho está dividido em quatro partes: introdução, a importância da Brinquedotecas Hospitalares, a comunicação da experiência e nossas considerações finais. Pretende-se com este trabalho apresentar as etapas do projeto assim como comunicar seus resultados, além de contribuir com a sociedade acadêmica trazendo discussões e referências sobre o a psicopedagogia hospitalar e incentivar futuras pesquisas e projetos nesta área.

Palavras - chaves: Criança. Hospital. Brinquedoteca. Psicopedagogia Hospitalar. Lúdico. Saúde.

1 INTRODUÇÃO
A psicopedagogia é uma área do conhecimento multidisciplinar que abrange conhecimentos da pedagogia, psicologia, lingüística, sociologia, antropologia, neurociência, neuropsicologia e outras áreas.
O código de ética da Associação Brasileira de Psicopedagogia define a psicopedagogia em seu art.1º como:
 Um campo de atuação em saúde e educação que lida com o processo de aprendizagem humana, seus padrões normais e patológicos, considerando a influência do meio-família, escola e sociedade no seu desenvolvimento, utilizando procedimentos próprios da psicopedagogia. ( P. 01. 2011)
Nascida na França, mas fundamentada na Argentina, a psicopedagogia, chegou ao Brasil na década de 70 e fixou raízes através de psicopedagogos argentinos como Alice Fernandez, Jorge Visca e Sara Pain.
Reconhecida como profissão, pela lei 3512/10, no dia 05 de fevereiro de 2014, a psicopedagogia se encontra em um processo de ascensão e reconhecimento social, mostrando-se como uma alternativa necessária para o déficit educacional brasileiro.
Entretanto o campo de atuação do psicopedagogo não se limita às escolas, mas também a empresas, clínica, ONGs, presídios, orfanatos, casas de repousos e também hospitais, como coloca PORTO:
Como psicopedagogos, o nosso principal objeto de estudo é aprendizagem humana e temos competência para desenvolvermos um trabalho eficiente e eficaz também nos hospitais e na área da saúde. Já provamos nosso exercício na clínica e nas instituições, agora vamos partir para uma área pouco conhecida da intervenção psicopedagógica. (2010, p. 26)
A psicopedagogia argentina teve suas origens nas instituições hospitalares, como podemos observar nos relatos de Alice Fernandez, em entrevista a psicopedagoga e mestre em educação Maria Teresina Carrara Lelis, na Revista de Psicopedagogia 25(78), 2008, p. 186-197 ela conta como foram seus primeiros estudos e trabalhos em hospitais municipais da cidade de Buenos Aires juntamente com psicopedagogos, onde este profissional tinha uma formação paramédica de cinco anos na Universidade de El Salvador e trabalhava junto com médicos, neurologistas, oftalmologistas dentre outros profissionais com o objetivo de reeducação de déficit educacionais em crianças.
Entretanto, mesmo bebendo da fonte argentina, a psicopedagogia hospitalar brasileira está longe de ser satisfatória, pois são parcas as experiências de profissionais incluídos nas equipes hospitalares em nosso país e concursos para os hospitais públicos são desconhecidos e sua atuação ficou restringida durante muito tempo a instituições escolares e clínicas privadas.
A psicopedagogia hospitalar é uma área com imenso potencial. A falta de classes hospitalares e de brinquedotecas nos hospitais são as principais causas para a ausência deste profissional nas equipes multidisciplinares. Apesar de haverem leis que obriguem a implantação de brinquedotecas e classes hospitalares no Brasil, a realidade é diferente e pouco tem sido feito para cumprir tais leis.
Pacientes pediátricos internados por longos períodos para tratamentos de patologias crônicas como as Hematológicas, Imunológicas e Psicopatológicas passam por mudanças psicológicas e sociais ao mesmo tempo, onde são retiradas do convívio familiar, amigos e escolar de forma brusca, dessa forma necessitam de acompanhamento psicopedagógico, para que assim possa dar continuidade estimulação dos seus processos cognitivos, afetivos e sociais. Desta forma concordamos com PORTO, quando ela afirma que:
A psicopedagogia hospitalar apresentar uma das novas especializações da Psicopedagogia, que vem dar suporte e apoio de aprendizagens e reaprendizagens ao paciente interno, humanizando e contribuindo para a promoção da Saúde. (2010, p. 20)
E acrescenta:
A proposta da psicopedagogia hospitalar é ser o interlocutor, não só de crianças, mas também de todos aqueles que passam por internações, sejam elas curtas, médias e de longas durações, doenças crônicas e de pacientes terminais, dando o melhor de nossa atenção e técnica, mas criando um mundo, onde as pessoas se preocupam com as outras. ( 2010, p. 22)

O presente trabalho tem como objetivo apresentar o trabalho realizado por um dos grupos de estágio supervisionado do curso de pós-graduação em psicopedagogia clinica institucional e hospitalar na Unidade Integrada de Saúde do Parque Piauí em Teresina, Estado do Piauí, assim como seus resultados. Mostrando a importância da valorização do espaço lúdico no ambiente hospitalar e da atuação do psicopedagogo nas brinquedotecas.
O estágio foi realizado em sessenta horas, divido em três etapas: Visita ao hospital, Planejamento e Levantamento Bibliográfico, Execução, Avaliação e Apresentação dos Resultados do projeto, intitulado, “Aprender Brincando’,cujo objetivo foi a revitalização da Brinquedoteca do Hospital.
Este trabalho encontra-se dividido em duas etapas: A importância das Brinquedotecas nos Hospitais e a Apresentação do trabalho e seus resultados. Ele foi fundamentado nas obras de Olivia Porto e Ângela Cristina Maluf, sobre psicopedagogia hospitalar e brinquedotecas respectivamente. Também foram usados artigos e resenhas da Revista de Associação Brasileira de Psicopedagogia edição número 78, a pesquisa de Mestrado de Mayara Barbosa S. Lima sobre as Brinquedotecas Hospitalares de Belém, que traz além de excelente fundamentação teórica sobre o brincar, o lúdico e as brinquedotecas, também, traz uma extensa lista de sugestão de materiais, brinquedos e jogos para serem utilizados em Brinquedoteca além de outros trabalhos oriundos de pesquisa digital.
Não se pretende aqui fazer uma discussão profunda sobre a psicopedagogia hospitalar ou sobre a função do psicopedagogo, nem sobre o funcionamento das brinquedotecas. Pretende-se estimular novos trabalhos nesta área trazendo sugestão de leitura e um exemplo de projeto aplicado em instituição hospitalar.
Acredita-se que este trabalho venha ser uma referência do trabalho psicopedagógico hospitalar no Brasil, e que ele possa contribuir para que esta vertente possa ser reconhecida e ampliada em todos os setores públicos e privados brasileiros.



2 A IMPORTÂNCIA DAS BRINQUEDOTECAS HOSPITALARES
A sociedade busca o hospital devido a uma enfermidade curta ou prolongada, a fim de solucionar imediatamente a doença e o sofrimento causado por ela. Entretanto muitas vezes há a necessidade de internação e a rotina familiar é alterada bruscamente, surgindo à necessidade do deslocamento da pessoa doente para o hospital e muitas vezes de um familiar, retirando-lhe do convívio familiar, amigos e da escola, nos casos de crianças que é o foco deste trabalho.
O momento de internação é permeado de fatores que influenciam a recuperação do paciente. Tais fatores são importantes e podem trazer profundas conseqüências, mesmo depois da alta, como nos mostra LIMA:
A hospitalização pode gerar uma série de alterações comportamentais na criança, tais como:diminuição  da  vocalização,  redução  de  estímulos  motores,  regressão  no  processo  de maturação psicoafetiva, hipermotricidade, distúrbios  alimentares e do sono, comportamentos agressivos, agitação ou apatia, choro constante, isolamento e dificuldades escolares.(2011, P. 16)
.As restrições dos ambientes hospitalares vão além dos espaços físicos, mas principalmente às próprias limitações decorrentes da enfermidade que causam a ausência de estímulos e diminuição das possibilidades de exploração do meio, podendo dessa forma comprometer o desenvolvimento da criança em caso de patologias que exigem longos processos de internação podem ser desenvolvidos:
(...) distúrbio psiquiátrico em um dos pais ou na criança; relacionamento pais criança inadequado; faixa etária, quanto menor a idade, mais vulnerabilidade. (...) as crianças  que  experimentam  longo período  de  hospitalização  ou  repetidas  internações  correm  maior  risco  de  terem  seu desenvolvimento  comprometido elas  podem desenvolver  uma  doença  denominada  de  nanismo  psicossocial,  devido  à  influência  do hormônio do hipotálamo, a criança para de crescer.(LIMA, 2011.p. 17)
Geralmente as crianças são resistentes aos tratamentos hospitalares. São inúmeros soros, injeções, medicações, exames em que a criança precisa passar enquanto se encontra no hospital o que a leva ao desejo constate de retornar a sua rotina normal, já que durante o período que passa internada é quase por completo deitada no leito do hospital o que a limita do convívio com a família, escola e outros grupos sociais.
Os pais, familiares e acompanhantes também são afetados em todo este processo que leva ao stress emocional e físico da espera pela reabilitação da criança enferma que, junto com seus acompanhantes ficam agitados, angustiados, nervosos e irritados com a presença ou ausência da equipe médica nas enfermarias.
As equipes de trabalhos também são afetadas pelo stress laboral da jornada de trabalho, da ansiedade para o restabelecimento dos seus pacientes, ou até mesmo na perda destes. Causando, muitas vezes, dificuldades de relacionamento entre os membros da equipe e com a família dos pacientes.
O trabalho do psicopedagogo hospitalar num espaço de ludicidade pode ser inserido neste contexto como um mediador de conflitos entre os agentes de trabalhos e pacientes, servindo como um agente de condução para novas aprendizagens, proporcionando convívio social e alivio emocional.
Dentro deste espaço lúdico, que a partir de agora chamaremos de Brinquedoteca, a criança internada terá oportunidade de dar continuidade ao seu vínculo com a escola e com a aprendizagem.
As primeiras brinquedotecas surgiram nos Estados Unidos, na cidade Los Angeles em 1934 com um tipo de serviço que até hoje é conhecido como ToyLoan (empréstimos de brinquedos), mais tarde, 1963, na Suécia começaram experiências com uso de brinquedotecas com crianças portadoras de necessidades especiais. No Brasil a primeira Brinquedoteca foi criada em 1973 em uma APAE na cidade de São Paulo a partir desta experiência muitas outras se espalharam pelo país. (SILVA, 2010).
As brinquedotecas hospitalares surgiram na Tailândia em 1909, mas somente na década de 80 é que surgem as primeiras no Brasil (SILVA, 2010) Atualmente é obrigatória a instalação de brinquedotecas em ambientes de saúde e educação conforme a Lei Federal nº 11.104 de 21 de março de 2005, sancionada pelo então Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 21 de março de 2005, que dispõe sobre a obrigatoriedade de instalação de brinquedotecas, nas unidades de saúde que ofereçam atendimento pediátrico em regime de internação. Vejamos o que diz esta lei:
Art. 1º Os hospitais que oferecerem atendimento pediátrico contarão, obrigatoriamente, com brinquedotecas nas suas dependências.
Parágrafo único – o disposto no caput deste artigo aplica-se a qualquer unidade de saúde que ofereça atendimento pediátrico em regime de internação.
Art. 2º Considera-se Brinquedoteca, para os efeitos desta lei, o espaço provido de brinquedos e jogos educativos, destinados a estimular as crianças e seus acompanhantes a brincar.
(BRASIL, 2005, p.01-02)
Além desta lei, foi criado o Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar-PNHAH (Brasil, 2004), a fim de tornar  o  ambiente  hospitalar  mais  acolhedor e aumentar  a colaboração da criança ao tratamento; minimizar os prejuízos comportamentais causados pela hospitalização (LIMA,2011 p.22)
A Brinquedoteca é um espaço criado para estimular a criança. É um local de descobertas, estimulação e criatividade. De acordo com PORTO:
A Brinquedoteca surge como uma alternativa aos problemas da vida na sociedade contemporânea, na qual a falta de espaço e de segurança restringe ou impede o brincar feliz. Outro fator é a condição socioeconômica e, também, o pouco contato que as crianças passam a ter com outras de sua idade na medida em que as famílias tendem a ter um número menor de filhos. (2010, p.55)
Dessa forma entende-se que a Brinquedoteca também seja um espaço de socialização e seu objetivo é sempre resgatar o lúdico, proporcionar um ambiente favorável para que a criança descubra brincadeiras, se relacione com outras crianças e desenvolva suas potencialidades.  MALUF acrescenta dizendo que as brinquedotecas são:
Um espaço preparado para estimular a criança a brincar, possibilitando o acesso a uma grande variedade de brinquedo dentro de um ambiente lúdico. Na verdade seria um lugar preparado para as crianças ficarem o tempo que quiser, pois neste local, elas brincam, inventam, expressam suas fantasias, seus desejos, seus medos, seus sentimentos e conhecimentos construídos a partir das experiências que vivenciam. (2012, p. 62)
As Brinquedotecas estimulam à criatividade, a cognição, desenvolve a imaginação, a oralidade, a socialização, a expressão e incentiva a ludicidade das mais variadas formas, seja na busca de soluções de problemas ou pelo simples desejo de inventar. Torna o espaço hospitalar menos impactante na esfera emocional da criança. Também, em contato com os brinquedos e as atividades programadas, os pacientes podem se tornar participantes ativos do processo de reabilitação contribuindo assim, para a aceitação do tratamento e do tempo de internação.
A Brinquedoteca no ambiente hospitalar é um recurso de estímulos para as crianças, pois ela oferece a oportunidade da continuidade do processo educativo e de desenvolvimento infantil, uma vez que a criança poderá explorar um ambiente que, ao contrário do ambiente hospitalar, lhe parece familiar e acolhedor, como afirma SILVA:
A Brinquedoteca Hospitalar oferece para a criança alegria, estimulando sua fantasia através dos brinquedos e do brincar, proporcionando mecanismos que fazem com que elas se sintam à vontade em um ambiente diferente. Com propósito de atender e oferecer às crianças um lugar favorável a sua recuperação contribui também para a formação educacional da criança em novo conceito de atendimento hospitalar na pediatria. (SILVA, 2010. p. 23)
Outra importância da Brinquedoteca no ambiente hospitalar é a preparação da criança para a alta, para a volta as suas atividades normais, ou até mesmo para aceitar a possibilidade de sua volta ao hospital, amenizando assim possíveis traumas que a criança pode ter de sua permanência no hospital e até mesmo a rejeição da saída do hospital como coloca MALUF, falando sobre a criança hospitalizada:
Se a permanência foi longa alguns vínculos podem ter sido interrompidos e ela pode precisar de ajuda para se adaptar. Até porque em certos casos, a volta pode ser pior do que permanecer no hospital. Pode acontecer também que no hospital ela tenha encontrado mais atenção e alimento do que em sua própria casa. (2012, p. 66)
A Brinquedoteca também proporcionar condições para que a família e os amigos que vão visitar a criança encontrem-na num ambiente favorável e que não aumente a ansiedade, angústia e sofrimento dos familiares diante da enfermidade do ente querido.
Entendemos que o trabalho do psicopedagogo hospitalar dentro do espaço da Brinquedoteca Hospitalar favorece em muitos aspectos a aceitação ao tratamento, facilita a permanência da criança hospitalizada e contribui para a continuidade do seu processo educativo. Onde ele pode utilizar-se deste espaço para realização de atividades pedagógicas, lúdicas e brincadeiras.
3 UMA EXPERIÊNCIA DE BRINQUEDOTECA NO HOSPITAL DO PARQUE PIAUI NA CIDADE DE TERESINA.
O Hospital do Parque Piauí, localizado na cidade de Teresina, no Estado do Piauí, Brasil é um hospital de pequeno porte da rede pública municipal. Com quatro enfermarias adultas e duas pediátricas é um dos únicos hospitais da cidade que possui uma Brinquedoteca no estado.
O estagio hospitalar foi realizado na instituição supracitada nos meses de novembro a dezembro de dois mil e treze.
O projeto teve como participantes nove alunas do curso de pós-graduação em psicopedagogia clínica, institucional e hospitalar da Faculdade Maurício de Nassau.
O projeto teve início com visitas ao hospital para o reconhecimento das necessidades dos pacientes, do espaço lúdico já existente da Brinquedoteca e da realidade do trabalho psicopedagógico na instituição. Vale ressaltar que o hospital possui uma psicopedagoga em sua equipe ambulatorial que realiza atividades com pacientes agendados e atividades extras como grupos de tabagismo e organização de reuniões e eventos com o corpo profissional médico e técnico do hospital. Entretanto, a profissional não mantém vínculo empregatício no município como psicopedagoga, sendo um profissional cedido da secretaria educacional para a secretaria de saúde.
Após visita técnica de sondagem no hospital a equipe de estágio concluiu que a Brinquedoteca do espaço necessitava de uma revitalização em virtude do espaço físico estar em desuso pela falta de brinquedos, de material pedagógico e até pela desorganização de cadeiras e mesas que estavam amotinados em um canto. A equipe então passou para a fase de planejamento da revitalização do espaço físico da Brinquedoteca, onde foram realizadas leituras sobre o aporte teórico e pesquisas digitais sobre outras experiências de Brinquedoteca Hospitalares no Brasil para referências.
A equipe encontrou como referencia o trabalho realizado no Hospital Geral de Bragança no Pará e a tese de mestrado de Mayara Lima onde traz uma avaliação sobre todas as Brinquedotecas de Belém, de onde se pode ter uma consistente fundamentação teórica e orientação sobre decoração, funcionamento e materiais. Daí organizou-se o projeto intitulado como “Aprender Brincando” e apresentou-o a supervisão psicopedagógica do estágio.
Após aprovação do projeto, a equipe de estágio o colocou em prática em três fases; primeiramente o projeto foi apresentado para a direção do hospital que ficou ciente e autorizou mudanças no local. Também foi apresentada a direção sugestões de mudanças futuras, como a necessidade de ampliação da Brinquedoteca, pois “a Brinquedoteca deve possuir acústica, ventilação e iluminação adequadas,  bem  como  boas  condições  de  higienização” (LIMA,2011 p. 28) além de contratação de profissionais específicos pois assim como coloca LIMA( 2011) acreditamos que “somente uma equipe bem organizada e afinada em seus objetivos conseguirá estruturar um espaço coerente”(LIMA, 2011 p. 28)  e que este profissional “seja um parceiro disponível para a brincadeira, ele deve auxiliar a criança a entender o que está acontecendo com ela e a sua volta, e estimular os comportamentos lúdicos da clientela;” (LIMA, 2011, p. 28).
Em seguida foi feito o processo de revitalização do local. Foram trocadas todas as decorações, novos livros, revistas, jogos e brinquedos foram adquiridos.
A Brinquedoteca foi organizada levando em conta que ela é “espaço onde assegura à criança o direito de brincar” (PORTO, 2013, p. 55). O local foi reorganizado, as prateleiras foram redecoradas, arrumadas e etiquetadas, foram adquiridos novos brinquedos e materiais didáticos como livros, revistas, coleções, cola, lápis, canetinhas e cadernos, mesas, cadeiras e assentos foram organizados para que a Brinquedoteca cumpra seu papel como mostrar GASPAR (2010) em seu trabalho sobre brinquedotecas em ambientes hospitalares: As brinquedotecas devem proporcionar momentos de lazer por meio das atividades ou brinquedos de recreação, auxiliando na recuperação, ajudando a diminuir o trauma psicológico da internação”.(p. 3)
Os brinquedos e jogos foram selecionados a partir da orientação de PORTO (2012, p. 56) de acordo com a funcionabilidade, experimentabilidade, estruturabilidade e relacionalidade classificadas no ICCP ( Classificação Internacional CouncilformChildren’s Play) de forma que foram escolhidos brinquedos para atividades sensória motor (brinquedos de montar) , para atividades físicas (velocípedes, bolas) atividades simbólicas (bonecos, robôs, bonecas, panelinas, carros , etc) atividades pedagógicas ( quebra-cabeças, jogos de regras, boliche, pega varetas, cubo mágico e outros).
Foi confeccionado um mural de madeira com vidros para fixação de regras e recados para os familiares das crianças hospitalizadas, assim como informativos para que os brinquedos não fossem levados para casa, tentando assim conscientizar da importância da manutenção da Brinquedoteca em virtude de trabalhos anteriores já terem sido feito no mesmo local e a ocorrência do furto dos brinquedos era constate.
Depois da revitalização do espaço físico, a equipe fez uma campanha de conscientização e valorização da Brinquedoteca junto à comunidade hospitalar. Foram feitos folders e distribuídos entre pacientes, familiares, acompanhantes, visitantes e principalmente funcionários a fim de mostra a importância do uso e conservação da Brinquedoteca Hospitalar, fase tão necessária como nos mostra LIMA (2011) quando diz: que “a implementação da Brinquedotecas deverá ser acompanhada de um trabalho de divulgação e sensibilização junto à equipe hospitalar”.(p.17)
A equipe de estágio, também, reuniu-se com os funcionários de limpeza do hospital a fim de orientar sobre lavagem, desinfecção, limpeza e manutenção dos brinquedos e objetos. Informando-os das regras da vigilância sanitária para assepsia e controle de bactérias e vírus no ambiente hospitalar a fim de preservar o sistema imunológico dos freqüentadores da Brinquedoteca, pois “os riscos dos brinquedos causarem infecção cruzada são evidentes e que, portanto, medidas preventivas são essenciais”. (LIMA, 2001, p. 29)
Passada todas estas fases a equipe em conjunto com outras equipes de estágio realizaram atividades pedagógicas com crianças internadas, confirmando assim a importância da manutenção e eficácia daquele espaço lúdico.
Por fim a equipe fez apresentação do projeto e seus resultados no auditório do hospital com a presença da supervisão do estágio, representantes do hospital e da coordenação da faculdade, além das outras equipes de estágios.
Os resultados obtidos com o projeto foram plausíveis e reconhecidos pela equipe técnica do hospital, que reconheceu as dificuldades de manter o espaço funcionando e se comprometeu de dar continuidade ao projeto.



CONSIDERAÇÕES FINAIS
Durante muito tempo o tratamento de doenças estava relacionado apenas com exames clínicos, remédios e outros procedimentos médicos, que visavam à cura da enfermidade do paciente, isto porque não havia uma preocupação com o emocional, ou seja, com o psicológico da pessoa enferma.
Demonstramos neste trabalho a importância do trabalho psicopedagógico e da implantação da Brinquedoteca no ambiente hospitalar, um espaço lúdico, de interação social e aprendizagem significativa a partir da revitalização da Brinquedoteca do Hospital do Parque Piauí em Teresina, contribuindo, assim,  com melhoria da qualidade do atendimento psicossocial do hospital assim como melhorias na qualidade de reabilitação da criança doente, pois a mesma transformou o aspecto triste da internação em momentos alegres, fazendo com que as crianças aceitassem o tratamento e ficassem mais tranqüilas após a medicação e enquanto aguardam o restabelecimento de sua saúde.
As brinquedotecas hospitalares já implantadas no Brasil mostraram resultados positivos e satisfatórios, onde atendimento se torna mais humanizado e menos traumatizante na internação pediátrica, além de que elas contribuem na recuperação e tratamento da criança hospitalizada.
Com vários estudos desenvolvidos na área da saúde, foi observado que não só o fator remédio contribui para a cura, mas outras ações devem ser levadas em consideração Nesse âmbito, estudos o brincar também pode ser usado como recurso terapêutico no processo de cura de enfermidades, pois ele minimizar o sofrimento e potencializando a capacidade de novas aprendizagens, além de favorecer a comunicação e interação social.
É necessário que a gestão pública e iniciativa privada observem a necessidade da implantação destes espaços nos ambientes hospitalares, pois é de sua responsabilidade o oferecimento de educação integral a toda pessoa em qualquer situação em que ela se encontre.
Leis e decretos foram criados no Brasil a fim de assegurar as pessoas hospitalizadas acesso a um tratamento mais humanizado que não envolva apenas os aspectos biológicos da tradicional assistência médica à enfermidade, porque a experiência de adoecimento e hospitalização implica mudar rotinas; separar-se de familiares, amigos e objetos significativos; sujeitar-se a procedimentos invasivos e dolorosos e, ainda, sofrer com a solidão e o medo da morte – uma realidade constante nos hospitais.
É urgente a necessidade de reorganizar a assistência hospitalar no Brasil, priorizando o acesso ao lazer, ao convívio social, às informações sobre seu processo de adoecimento, cuidados terapêuticos e ao exercício intelectual. Respeitando assim as diferença e tornando o espaço hospitalar um lugar mais humano e acolhedor para que isto aconteça, a implantação de Brinquedotecas é imprescindível.
Acredita-se que com a regulamentação da profissão do psicopedagogo e a criação de novas instituições de organização da classe possam surgir novas conquistas, como concursos públicos para hospitais, não somente para brinquedotecas, mas para atendimentos clínicos ambulatórias para a população de baixa renda que sofre com déficits escolares, atendimentos às enfermarias pediátricas e adultas, ou até mesmo na gestão destas instituições que têm como objetivo assegurar o direito a vida e a saúde de todos os cidadões brasileiros.



THE IMPORTANCE OF WORKING WITHIN THE HOSPITAL PSICOPEDAGÓGICO INSTITUTION: THE TOY

ABSTRACT
This work consists in communicating the experiences of a group of internship in Hospital psychoeducation course of postgraduate clinical, institutional and hospital psychopedagogy Faculty Maurice of Nassau, in the city of Teresina, Piauí State, Brazil where the project was conducted "Playful Learning" which aimed at revitalizing the Toy Hospital and reflection on the importance of psycho-pedagogical work in hospitals. This paper is divided into four parts: introduction, the importance of Toy-Libraries Hospital, the communication of experience and our final considerations. We intend this work to present the stages of the project as well as communicate their findings, and contribute to the academic society bringing discussions and references on the the hospital psychoeducation and encourage future research and projects in this area.
Keyword: Child. Hospital.Playroom.Hospital Psychoeducation.Playful. Health










REFERÊNCIAS
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Código de Ética da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp). 2011. Disponível em http://www.abpp.com.br/codigo_etica_psico.pdf acessado em 25 de janeiro de 2014.

GASPAR,A. P & CABRAL, S.M.S.C. A importância da brinquedoteca em um ambiente hospitalar.Disponível em http://fio.edu.br/cic/anais/2009_viii_cic/Artigos/07/07.21.pdf Acessado em 08 janeiro de 2014.

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Lei 3512/10 (2014) . Lei de Regulamentação do Exercício da profissão do Psicopedagogo. Câmara dos deputados. Brasília, DF. Disponível em <http://www.senado.gov.br/atividade/materia/getPDF.asp?t=75833&tp=1>  Acessado em 10 de fevereiro de 2014.

LELIS, Maria Teresina Carrara. Cruzando as fronteiras da história da Psicopedagogia: uma entrevista com Alicia Fernandez. Revista de Psicopedagogia 25(78), 2008, p. 186-197. Disponível em <http://www.revistapsicopedagogia.com.br/download/78.pdf>Acessado em 10 janeiro de 2014.

LIMA, Mayara Barbosa Sindeaux (2011). Descrição e Avaliação das Brinquedotecas Hospitalares de Belém.Tese de Mestrado. Programa de pós-graduação em Teoria e Pesquisa do Comportamento.Manaus: Universidade Federal do Pará.

MALUF, Ângela Cristina Munhoz Maluf. Brincar: prazer e aprendizado. 8 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

PORTO.Olivia. Psicopedagogia hospitalar.  Rio de Janeiro:Wak, 2011.
SILVA, JACKSON PIRES. A Brinquedoteca Hospitalar e sua contribuição às crianças hospitalizadas: Um estudo na Pediatria do Hospital Geral de Bragança – Pará. Disponível <http://monografias.brasilescola.com/educacao/brinquedoteca-hospitalar-contribuicao-criancas-hospitalizadas.htm> Acessado em 18 de janeiro de 2014.




REFERÊNCIAS SUGERIDAS

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REIS,D.  F.  (2008).  Brinquedoteca hospitalar:  refletindo  sobre  os  espaços  e  as  práticas.Trabalho de Conclusão de Curso. Belém: Universidade Federal do Pará.

SILVA, Ana Cleide. Brinquedoteca: Brincar para incluir. Disponível em<http://educere.bruc.com.br/CD2011/pdf/5791_3060.pdf>Acessado em 17 janeiro 2014


VIEGAS, D.  Brinquedoteca  hospitalar:a  experiência  de  Santo André.  Em:S.  M.  P. Santos (Org.).  Brinquedoteca: o lúdico em diferentes contextos  (7ª ed, pp.  101-105). Petrópolis: Vozes.2002.

__________.O Papel  do  Brinquedo  na  Educação  e  na  Saúde.  Seminário Nacional Brinquedoteca: Brasília:  Câmara  dos  Deputados,  Coordenação  de  Publicações. Disponível em <http://www2.camara.gov.br/comissões/clp/publicação/brinquediteca120307.pdf>Acessado em 18 janeiro de 2014


VIEGAS, D.& Cunha, N. H. S. (2008). Normas para a brinquedoteca hospitalar. Em D. Viegas (Org.),Brinquedoteca Hospitalar isto é Humanização  (2ª ed, pp. 11-12). São Paulo: Wak Editora.2001.

PROIBIDO A REPRODUÇÃO DESTE TEXTO SEM PREVIA AUTORIZAÇÃO DA AUTORA.
CONTATO COM A AUTORA 
JOSSANDRA BARBOSA (jossandrabarbosa@gmail.com)

AO USAR EM TRABALHOS CIENTIFICO CITE COMO FONTE DE REFERÊNCIA ESTE SITE.

DIFICULDADES LINGUÍSTICAS DO INDIVIDUO DISLÉXICO

DIFICULDADES LINGUÍSTICAS DO INDIVIDUO DISLÉXICO: Causas e consequências no aprendizado escolar


Autora: Stella Maris da Silva Reis
RESUMO

O presente artigo busca refletir, através de uma pesquisa bibliográfica, as causas e consequências das dificuldades linguísticas apresentadas pelos indivíduos disléxicos no contexto escolar.  Analisa e reflete a importância da linguagem para o ser humano a partir de uma análise do desenvolvimento linguistico. Através da definição e caracterização de dislexia reflete sobre a interferência desta, que é considerada um transtorno específico da área da linguagem, no desenvolvimento linguístico dos seres humanos, bem como suas consequências, para o indivíduo que a possui, no contexto escolar.

Palavras-chave: Linguagem; Dislexia; Aprendizado Escolar

This essay reflects, through a literature search, the causes and consequences of language difficulties presented by dyslexic individuals in the school context. Analyzes and reflects the importance of language to humans from an analysis of linguistic development. Through the definition and characterization of dyslexia reflects on this interference, which is considered a specific disorder in the area of language, the linguistic development of human beings and their consequences for the individual who has, in the school context.

            Key-words: Language;  Dyslexia; School Learning 


SUMÁRIO


1 INTRODUÇÃO............................................................................................... 1

2 DESENVOLVIMENTO ........................................................................... 3

   2.1. A importância da linguagem para o homem .................................. 3
   2.2. Dislexia.......................................................................................... 5
     2.2.1. Aspectos neurológicos da dislexia........................................... 7
     2.2.2. Tipos de dislexia..................................................................... 10
  2.3. Desenvolvimento linguístico e a dislexia....................................... 11
    2.3.1 – Leitura.................................................................................... 12
 2.4 – Inclusão do disléxico na escola.....................................................13

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................... 17

BIBLIOGRAFIA........................................................................................ 19 


 1 INTRODUÇÃO

Diante das observações em minha prática profissional como docente de língua portuguesa e estudante de Psicopedagogia, me propus a pesquisar e analisar como a dislexia interfere no desenvolvimento da linguagem daqueles indivíduos que a possui e as consequências que a mesma causa desde o seu rendimento escolar à sua socialização no contexto escolar.  Este estudo tem ainda por objetivo pesquisar e refletir sobre a importância da linguagem e seu desenvolvimento para os seres humanos e também analisar as dificuldades em leitura e escrita apresentadas pelos disléxicos.  

Os estudos sobre a dislexia apontam que indivíduos com este transtorno apresentam dificuldade em decodificar o estímulo escrito ou o símbolo gráfico, de aprender a ler e escrever com correção e fluência e de compreender um texto. Sendo assim as habilidades de leitura e escrita ficam comprometidas afetando o desenvolvimento da linguagem desses indivíduos.

A Dislexia é um transtorno específico da linguagem. Afeta diferentes áreas e estímulos cerebrais que têm como função a aquisição da linguagem oral e escrita. Pessoas disléxicas apresentam um funcionamento próprio do cérebro para os procedimentos linguísticos, relacionados à leitura, tendo dificuldades de associação do símbolo gráfico como o som que elas representam e de organizá-las, mentalmente, numa sequência temporal. Os disléxicos apresentam ainda problemas na fala, não conseguem reconhecer imediatamente uma palavra, leitura demorada e silábica, dentre outros.

É através da linguagem que o ser humano se constitui como sujeito. É ela também responsável pela interação social dos seres humanos. A linguagem se manifesta através da fala, leitura e escrita. Essas habilidades fazem parte do aprendizado do indivíduo desde seus primeiros momentos de vida. Sendo então a linguagem algo tão essencial para o ser humano, é indutivo pensar que “falhas” no processo de desenvolvimento da linguagem possam prejudicar o aprendizado dos indivíduos. É na fase escolar que a dislexia se manifesta, geralmente no final da alfabetização e nos primeiros anos escolares. Apesar de possuir outras habilidades, a criança começa a apresentar dificuldades inesperadas de aprendizagem de leitura e escrita. Essas dificuldades trazem o insucesso na alfabetização comprometendo o aprendizado de conteúdos linguísticos posteriores a alfabetização.

 A metodologia utilizada neste trabalho para o levantamento de dados será a pesquisa qualitativa bibliográfica, tendo como foco analisar a interferência da dislexia no desenvolvimento da linguagem dos indivíduos disléxicos bem como suas causas e consequências. Primeiramente a pesquisa tratará da importância da linguagem no desenvolvimento humano, logo tratará da dislexia como um transtorno de aprendizagem e as consequências que ela traz para esse processo de desenvolvimento da linguagem do indivíduo que a possui. A reflexão não se limita apenas a consequências linguísticas que a dislexia causa, mas também há uma abordagem acerca da socialização do indivíduo disléxico que muitas vezes é alvo de incompreensão no ambiente escolar, construindo, em alguns casos, uma experiência de insucesso escolar e baixa estima.





        2 DESENVOLVIMENTO


        2.1 A IMPORTÂNCIA DA LINGUAGEM PARA O HOMEM


O homem utiliza a linguagem como forma de expressar seus sentimentos, pensamentos e para se comunicar de forma geral. Há vários tipos de linguagem. Ela pode ser verbal, não-verbal, formal ou informal. A linguagem acompanha o homem desde os primórdios. Os primatas utilizavam os desenhos e os sons como principal meio de comunicação. Com a evolução da espécie, a necessidade de expressar foi se tornando mais complexa e com isso a linguagem também foi se evoluindo, logo veio a fala e posteriormente a escrita junto a tecnologia. “Linguagem é a faculdade que o homem tem de se exprimir e comunicar por meio da fala.” (CEGALLA, 2008 p. 16).

Cegalla (2008) define linguagem como a capacidade do homem em se comunicar através da fala. E é através da comunicação que o homem interage com o mundo e com a sociedade. Por isso a importância da fala para os seres humanos. Porém, a linguagem não se restringe somente a fala. A linguagem se manifesta também através da escrita, símbolos, gestos, sons e outros. Segundo ASHA (1982, p.5)[1] “A linguagem é a capacidade humana para compreender e usar um sistema complexo e dinâmico dos símbolos convencionados, usado em modalidades diversas para comunicar e pensar”.


A linguagem é uma característica essencial do ser humano que não vive só. A linguagem é uma aptidão para a interatividade com os outros. O homem se constitui como sujeito e cidadão através da linguagem, pois é através dela e inseridos num contexto sociocultural que constituímos nossa identidade. O homem não necessita da linguagem apenas para se comunicar, mas também para compreender os símbolos linguísticos do contexto em que está inserido.

Desde os primeiros momentos de vida o ser humano já se comunica. Os bebês se comunicam através de gestos e sons. No seio familiar sua linguagem vai se desenvolvendo, entretanto com novos contatos sociais e culturais externos a família outras habilidades são oferecidas, como por exemplo, a leitura e a escrita que são trabalhadas no contexto escolar.   


[...] A herança genética da espécie vai garantir o aparecimento de possibilidades concretas de comunicação que vão dos movimentos do corpo à oralidade. Já a cultura propiciará formas de utilização do movimento e da oralidade, da mesma maneira que trará, à criança, outras formas de comunicação e expressão, que são resultado da própria história humana. (LIMA, 2009 p.7)


A oralidade se desenvolve até aproximadamente os nove ou dez anos de idade e não se desprende da linguagem corporal. Daí a importância também das habilidades artísticas (canto, dança, desenhos...) no processo de desenvolvimento linguístico da criança, esses auxiliam no desenvolvimento das funções psicológicas superiores, enriquecem a imaginação proporcionando à criança a construção de significados. De acordo com Lima, (2009) a participação da criança num contexto sociocultural influencia no seu desenvolvimento linguístico sobretudo em relação a concretização da escrita:

A escrita é um produto da cultura humana e se insere no percurso do desenvolvimento da função simbólica. Portanto, a criança, para adquiri-la, precisa efetivar uma série de realizações do domínio da função simbólica. Uma delas é ser capaz de dar significado a uma forma, capacidade que ela adquire realizando colagens, dobraduras, desenhos, brincadeiras (LIMA, 2009 p.28)

A linguagem oral é uma base linguística indispensável para que as habilidades de leitura e escrita se estabeleçam. Quando há falhas em uma dessas habilidades todo o sistema de comunicação se compromete. Isso porque a escrita muitas vezes é reflexo da fala e vice versa. A leitura antecede a habilidade de escrita. Então, se o sujeito não lê bem consequentemente não escreve bem. É geralmente na escola que o homem inicia seu processo de sistematização da alfabetização sendo exposto a estímulos específicos com o objetivo de desenvolver e concretizar as habilidades linguisticas. É normal o surgimento de algumas dificuldades de aprendizado neste processo, são várias as causas de seu surgimento, porém quando essas dificuldades não são sanadas ou persistem por um tempo superior ao normal faz-se necessário uma investigação sobre as possíveis causas dessa dificuldade ou transtorno para que sejam tomadas as medidas pedagógicas adequadas.

2.2 DISLEXIA

No meio ao desenvolvimento linguístico do ser humano pode surgir interferências que prejudicam esse processo. Essas “interferências” denominam-se em transtornos e dificuldades. A Dislexia, especificamente, é um transtorno de aprendizagem da área da linguagem.  

[...] Dislexia é um problema com linguagem. Inteligência não é problema; o problema é linguagem. As pessoas que são disléxicas podem ter dificuldade de leitura, de escrita, de compreensão da linguagem que elas escutam ou de se expressar claramente pela fala ou pela escrita. Há uma discrepância inesperada entre o seu potencial para aprender e seu desempenho escolar.(LYON, 1995 p.30 )

Parafraseando Lyon, a dislexia acomete crianças com inteligência dentro dos padrões de normalidade, sem deficiências sensoriais, isentas de comprometimento emocional significativo e com oportunidades educacionais adequadas. Indivíduos disléxicos muitas vezes possuem um desenvolvimento dentro do esperado em outras atividades que não exigem a habilidade de leitura.

O médico oncologista e pesquisador brasileiro Dr. Dráuzio Varella define dislexia em seu artigo titulado “Distúrbios de linguagem – dislexia”[2]:


Dislexia é um transtorno genético e hereditário da linguagem, de origem neurobiológica, que se caracteriza pela dificuldade de decodificar o estímulo escrito ou o símbolo gráfico. A dislexia compromete a capacidade de aprender a ler e escrever com correção e fluência e de compreender um texto. Em diferentes graus, os portadores desse defeito congênito não conseguem estabelecer a memória fonêmica, isto é, associar os fonemas às letras. (VARELLA, 2006 p.5).



Varela considera a dislexia como sendo um distúrbio de linguagem com origem hereditária. Apensar de possuir uma origem genética, a dislexia não é uma doença. É um transtorno de aprendizagem que compromete as habilidades de leitura, escrita e compreensão textual. O indivíduo disléxico ainda apresenta dificuldades fonéticas (associar sons e letras) o que pode gerar dificuldades no processo de alfabetização no contexto escolar.

Em acordo com Dr. Dráuzio Varella a Associação Brasileira de Dislexia considera que a dislexia possui uma base neurológica com incidência expressiva de fator genético transmitido por um gene de pequena ramificação do cromossomo #6 justificando então que o transtorno se repita na mesma família.

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-IV (1995) a dislexia é um comprometimento acentuado no desenvolvimento das habilidades de reconhecimento das palavras e da compreensão da leitura. O indivíduo disléxico encontrará então dificuldades desde a decodificação da leitura, associação fonológica até a compreensão e interpretação textual.

É durante os 6 ou 7 anos de idade que a dislexia se torna mais evidente nas crianças que a possui. É nessa fase que pais e professores se queixam que crianças com inteligência média ou até acima da média, apresentam dificuldades para a alfabetização, apresentam desinteresse na leitura e/ou escrita, falha de atenção, uma vez que por apresentar dificuldades a criança perde o interesse. Importante ressaltar que, somente um diagnóstico clínico composto de uma equipe multidisciplinar (psicólogo, fonoaudiólogo, psiquiatra e outros) é capaz de constatar se a criança possui ou não dislexia. A dislexia não é um transtorno passível de cura, mas há tratamentos que possibilitam um indivíduo disléxico ser alfabetizado e letrado.  

São alguns sinais de dislexia: atraso na fala; deficiência na aquisição dos sons da linguagem; deficiência nas habilidades do pensamento e do raciocínio; permanência nas dificuldades de pronúncia até 5 ou 6 anos; não falar os sons iniciais de uma palavra. ex: agenda/genda; inverter sons internos de uma palavra. ex: animal/aminal; dificuldades com rimas; dificuldades em memorizar os nomes/sons das letras; dificuldades em memorizar a escrita do nome, dificuldades com a leitura e grafismo pouco elaborado devido a troca de letras e espelhamento; dificuldade em contar e recontar uma história na sequencia correta; dificuldade com rimas e ainda de lembrar nomes e símbolos.

É importante respeitar as fases de desenvolvimento linguístico do indivíduo antes de considerar sua dificuldade um sintoma de dislexia. Não é porque a criança tem uma escrita espelhada (quando se escreve a letra do lado contrário como se a mesma fosse um reflexo de um espelho), por exemplo, que ela possa ser dislexia, pois trata-se de uma “confusão” normal dentro de um certo estágio do desenvolvimento linguístico. Tais sintomas passam a ser suspeitos de dislexia quando permanecem durante estágios avançados do desenvolvimento linguístico e/ou não correspondem ao processo natural do desenvolvimento da criança.


2.2.1. – ASPECTOS NEUROLÓGICOS DA DISLEXIA

Segundo Ana Michele (2010) em seu artigo titulado “A dislexia na perspectiva anatômica”, é necessário entender o funcionamento do cérebro de um disléxico.

A figura a seguir apresenta a divisão do córtex cerebral humano:


Figura 01: Córtex Cerebral



Fonte:http://psicopedagogiaeducacao.blogspot.com.br/2010/07/dislexia-na-perspectiva-anatomica.html

Dentre as divisões do córtex cerebral há o lobo parietal, este é responsável pela função de percepção, memória e análise visual. Uma disfunção nessa região leva à dislexia, pois são funções essenciais no processo de desenvolvimento linguístico como visto no item 2.1 deste artigo.

A autora Ana Michele menciona que a lesão do lobo parietal esquerdo causa crises parciais retratadas por ataques paroxísticos de sensações anormais, propagadas pelo lado contralateral do corpo (crises sensoriais). Deficiências sensório-motoras expressas pela perda hemissensorial contralateral e perda do campo visual inferior. Deficiências psicológicas retratadas pela incapacidade de dar nome aos objetos e perda da capacidade de ler (alexia), escrever (agrafia) e calcular (acalculia). A lesão do lobo parietal direito causa crises parciais onde ataques paroxísticos de perturbações sensoriais afetam o lado contralateral do corpo (crises sensoriais simples). Deficiência sensório – motora com a  perda hemissensorial contralateral do campo visual inferior. Deficiências psicológicas que expressam a incapacidade de copiar e de construir esquemas devido à desorientação espacial (apraxia de construção).

O indivíduo disléxico possui ainda o hemisfério cerebral direito mais desenvolvido. O que, segundo a Associação Brasileira de Dislexia, justifica o fato de possuírem um potencial maior para as habilidades corelacionadas ao hemisfério cerebral direito, como representa a figura 2:

                               Figura 2:  Hemisférios do Cérebro Humano
               




É comum indivíduos disléxicos se destacarem em habilidades artísticas e esportivas por exemplo. Há registros na história de pessoas intelectualmente conhecidas que eram disléxicos, como Leonardo da Vinci (pintor), Walt Disney (desenhista e empresário), Bem Johson (esportista), Thomas Edison (inventor), Albert Einsten (cientsta), Whoopy Goldberg (atriz) dentre outros. Apesar das limitações os disléxicos não são seres “incapazes” de aprender, além de se destacarem em outras habilidades, com um tratamento adequado também são capazes de se destacarem na leitura e escrita como comprova a famosa escritora Agatha Chistie também disléxica.




2.2.2 – TIPOS DE DISLEXIA      

Dentre os conceitos de dislexia não é comum que autores abordem os diversos tipos de dislexia. O que leva a muitas pessoas interpretarem o transtorno apenas com base nos sintomas gerais de dislexia ou da dislexia fonológica. Esta é a mais abordada pelos autores, porém é de suma importância que educadores e familiares de indivíduos disléxicos tenham conhecimento dos diferentes sintomas e limitações que cada tipo de dislexia apresenta. Práticas pedagógicas e tratamentos psiquiátricos orientados pelas causas específicas de cada segmento da dislexia trará melhores resultados ao processo educacional do disléxico.

A dislexia pode ser adquirida ou de desenvolvimento. A dislexia adquirida é quando as habilidades de leitura já desenvolvidas são perdidas diante de uma lesão cerebral. Já a dislexia do desenvolvimento é quando o individuo apresenta defasagem em tal habilidade de forma natural.

Há ainda a dislexia fonológica em que o indivíduo realiza uma leitura visual das palavras, ou seja, durante o processo de leitura observa-se as palavras de forma global, através de dedução e não de um leitura convencional. Lê-se “casa” ao invés de “caso”.  É comum na dislexia fonológica:

Tabela 01: dificuldades características da dislexia fonológica

DIFICULDADE
EXEMPLOS
Confusões nas letras:
d-b; p-q; b-g; u-n; g-p; d-p
Omissões de letras/sílabas/palavras
chave/cave
Inversões nas letras/sílabas
pai/pia
Reiterações de sílabas/palavras
cozinha/cocozinha
Substituição de palavras
roda/pneu
Invenções de palavras
quê/ e de quê
Hesitações
(em palavras desconhecidas)
Ortográficas
(em palavras novas ou desconhecidas)




Já a dislexia superficial é quando a criança apresenta dificuldades para reconhecer as palavras irregulares, cometem erros de omissão, adição ou substituição das letras. E ainda apresentam problemas com a ortografia, pois se guiam pela informação auditiva, por exemplo, a palavra tóxico é lida como tóchico.

Quando a criança apresentar erros nos processos de leitura tanto visual quanto auditivo caracteriza-se uma dislexia mista. Ela apresenta então dificuldades para decifrar o significado das palavras, ler palavras abstratas e verbo, comete erros visuais e semânticos.

2.3 DESENVOLVIMENTO LINGUISTICO E A DISLEXIA

O ser humano não nasce sabendo falar e escrever. Essas habilidades são aprendidas e consolidadas ao longo do seu desenvolvimento biológico e cultural. A aquisição inicial da linguagem ocorre em dois processos, o pré-linguístico e o linguístico.

A primeira fase denominada como “pré – linguística” corresponde aos primeiros meses de vida da criança, é o balbuciar dos bebês, que geralmente ocorre no sexto mês de vida, que sinaliza o começo da aquisição da linguagem. Esses sons/balbucios produzidos pelos bebês não acarretam nenhum significado, porém são de extra importância uma vez que sinalizam o início da habilidade de comunicação linguística da criança.

Já o período “linguístico” é quando a criança já possui competências necessárias para utilização da linguagem. Aqui, ela já utiliza os símbolos linguísticos dentro de um contexto significativo. Esse período inicia-se aos 03 anos de idade.

Segundo o Dr. Antônio Carlos de Freitas em seu artigo titulado “Dislexia – aspectos neurológicos”.[3]

O disléxico apresenta dificuldades no nível mais primitivo da linguagem, o fonológico, o que lhe dificulta progredir para a forma mais complexa, a da compreensão simbólica – Leitura. Ele apresenta dificuldades de leitura porque interpreta mal as características sonoras dos símbolos gráficos (fonemas), reconhece com dificuldade esses sons quando estão integrados na palavra falada, tem dificuldade de compô-los em uma sequência lógica para formar e reconhecer palavras novas. (FREITAS,2008)

As dificuldades linguísticas apresentadas pelos disléxicos durante os 06 ou 07 anos de idade fundamentam-se na fase inicial da aquisição da linguagem, a fase que corresponde a aquisição e inicio do desenvolvimento fonológico da criança. Isso ocorre, como já apresentei anteriormente, devido a uma disfunção no lobo pariental que é responsável pela aquisição sensorial, e não porque a criança possa apresentar problemas de audição.

2.3.1. LEITURA[4]

Há duas interpretações típicas para o termo leitura, a primeira se refere ao ato de decodificar as letras, sons, sílabas e frases, já a segunda se refere a interpretação daquilo que se está lendo. A leitura, como afirma Rotta e Pedroso,(2006) trata-se de um processo complexo.

[...] A Leitura é uma forma complexa de aprendizagem simbólica. No transtorno específico da leitura chamado DISLEXIA a criança apresenta um comprometimento significativo no desenvolvimento das habilidades da leitura, com dificuldade no reconhecimento e na interpretação das palavras e de seu caráter simbólico. (ROTTA e PEDROSO, 2006 p. 152)



Selikowitz (1993) descreve como funciona o processo de leitura. O primeiro estágio é o da memória visual, este não envolve o sistema léxico[5], pois o léxico está vazio. As palavras são aqui reconhecidas como se fossem pessoas ou objetos.


[...]Eventualmente, este sistema deve ser superado. Muitas palavras são parecidas demais na forma e no tamanho para um sistema puramente visual diferenciá-las. Além disso, a ortografia não pode passar além de um estagio muito rudimentar, ao apoiar-se apenas no reconhecimento visual. (SELIKOWITZ(1993, p.51)


O segundo estágio é o fonológico (ou alfabético), é comum as crianças entrarem neste estágio aos 6 ou 7 anos de idade. As palavras são quebradas (segmentadas) em sons componentes. Aqui, as crianças já possuem um sistema especial para leitura que é essencial quando elas tiverem que equipar seu léxico para que possam progredir para o estágio automático.


[...] Á medida que as crianças adquirem maior capacidade de traduzir os grafemas que elas veem na página em fonemas corretos, elas começam a preencher “o léxico” do seu cérebro com palavras. Quando isto acontece elas podem começar a superar o sistema fonológico e ter acesso ao “léxico” sempre que elas leem uma palavra familiar. (SELIKOWITZ, 1993, p. 52)



O indivíduo disléxico apresentará um desenvolvimento lento entre o primeiro e o segundo estágio devido as suas limitações. É normalmente no segundo estágio que a dislexia é detectada pelo fato da criança apresentar dificuldades linguísticas que já deveriam ter sido superadas e/ou não se desenvolve conforme o esperado.




2.4  INCLUSÃO DO DISLEXICO NA SALA DE AULA

É na escola que habilidades de comunicação como leitura e escrita são desenvolvidas através de atividades específicas. A criança passa a comunicar-se desde seu primeiro contato com a sociedade, seja através de sons ou gestos. Ainda no seio familiar a linguagem oral é desenvolvida pelo simples contato com outros falantes, já a linguagem escrita exige que a criança tenha um contato com um ambiente propício ao aprendizado, profissionais capacitados para que a escrita se desenvolva. Inicia-se com a alfabetização e ao longo dos anos escolares a escrita se desenvolve desde a caligrafia à produção de gêneros textuais. Assim como confirma ZORZI (2003, p. 26 a 30)


[...] para aprender a linguagem oral, basta a criança conviver com falantes da língua. (...) No que se refere à escrita, para aprendê-la, a criança necessitará viver em uma sociedade letrada ou, mais especificamente, fazer parte de algum segmento da sociedade que tenham acesso ao letramento. (ZORZI, 2003 p. 26)

Durante os anos escolares iniciais em que a criança está submetida ao processo de alfabetização é que muitas vezes a dislexia é detectada. Apesar de alguns sintomas já se manifestarem logo no início da fase escolar. Crianças disléxicas, ainda no jardim de infância, período em que ainda são bebês, apresentam dificuldades, por exemplo, em rimar palavras e identificar letras e fonemas.  Para cada ano escolar há objetivos que devem ser atingidos pelos alunos. Quando uma criança não atinge algum objetivo de ensino, ou seja, quando ela não se desenvolveu da forma que era esperado faz-se uma investigação para detectar a falha e o porquê dela. Essa investigação se dá a partir da observação do docente e com um relatório escolar a criança é encaminhada a uma equipe multidisciplinar (psicopedagogo, psicólogo, fonoaudiólogo, dentre outros) para um diagnóstico.

O fato da criança apresentar alguns sintomas relacionados à dislexia não significa que ela seja disléxica. Os sintomas da dislexia são muitas vezes confundidos com uma dificuldade de aprendizagem que pode ser corrigida seja pela alteração da prática pedagógica adotada pelo corpo docente ou até mesmo por questões emocionais em relação à criança. Somente uma avaliação clínica pode diagnosticar um caso de dislexia. Esta avaliação inicia-se com uma investigação psicopedagógica em clínica e a partir dos resultados apresentados o paciente é encaminhando ao psicólogo, fonaodiólogo,  psiquiatra, alguns casos também são encaminhados ao neurologista, isso para que esses profissionais através de testes e exames específicos cheguem a uma conclusão presida do diagnóstico da crianças para então iniciar o tratamento.

Devido às intensas dificuldades encontradas pelos disléxicos durante as atividades escolares é comum que eles se sintam inferiores aos outros por não se desenvolverem como o esperado. Diante ao fracasso escolar, a criança com dislexia perde o interesse pelas atividades propostas, o que pode levar até mesmo ao abandono escolar. O problema com a autoestima também pode se agravar com o fato do disléxico, muitas vezes, ser “ignorado” pelos docentes. Isso ocorre, pois a maioria dos docentes não são capacitados para desenvolver didáticas diferenciadas para alunos disléxicos ou com outros distúrbios.


[...] Não é necessário que alunos disléxicos fiquem em classe especial. Alunos disléxicos têm muito a oferecer para os colegas e muito a receber deles. Essa troca de humores e de saberes, além de afetos, competências e habilidades só faz crescer a amizade, a cooperação e a solidariedade.  (BRAGGIO, 2006 p.56)


A criança disléxica, como postula Braggio, tem muito a contribuir com o ambiente escolar, pois apesar de suas dificuldades são seres dotados de muita inteligência e podem até se sobressaírem em atividades que não exigem a habilidade leitora. A afetividade deve ser trabalhada com o indivíduo disléxico e também com o grupo a qual ele convive a fim de evitar atos discriminatórios. Ele deve se sentir importante, capaz, motivado e acolhido dentre o grupo. A autoestima elevada influencia no processo ensino-aprendizado não só dos disléxicos, mas de qualquer indivíduo aprendiz. É indispensável, também, que docentes se capacitem para melhor intervir didaticamente no processo de ensino-aprendizado do indivíduo disléxico.

Não há um método específico, uma receita, para lecionar aos disléxicos, mas é de suma importância que os docentes conheçam e entendam o que é dislexia, como funciona o cérebro de um indivíduo disléxico e que respeitem o tempo de desenvolvimento dos mesmos. Há algumas atitudes que podem ser tomadas pelos docentes em busca de melhor acolher e contribuir para o desenvolvimento acadêmico dos disléxicos assim como sugere Luca, (2012) em “E a escola o que pode fazer pelo disléxico?”:

Em relação às atividades que exigem LEITURA o docente deve: 


Evitar fazer o aluno ler em voz alta na sala de aula. Todo um trabalho deve ser feito com o aluno e também com a classe para aí sim pedir para que o aluno com dificuldade realize a leitura. E, se for percebido que o aluno entra em sofrimento ao realizar esta tarefa, a leitura deve ser passada para outro colega, até que aquele com dificuldade sinta-se à vontade para fazê-lo, sem deixar que os demais zombem dele antes, durante ou depois da atividade. (LUCA,2012 p.9)

Em relação à LEITURA DA PROVA e/ou atividades de caráter avaliativo:


O aluno disléxico apresenta dificuldades na decodificação, portanto dificuldade na leitura. Caso o professor realize a leitura das questões ele terá uma compreensão mais rápida e adequada. O aluno terá que se preocupar apenas em lembrar-se da resposta e organizar a escrita da mesma. O que para ele não é pouco. Se esta leitura não for realizada pelo professor, ele terá que fazê-lo por si só e provavelmente repetidas vezes, correndo o risco ainda de cometer erros e desta forma, fazer uma compreensão equivocada o que levaria a uma resposta também equivocada. (LUCA, 2012 p.9).




Luca (2012, p.9 a 11), ainda ressalta sobre a prova oral que pode ser uma alternativa dependendo da dislexia da criança. Por apresentar dificuldades para se expressar através da escrita a criança não se prejudicará na avaliação. O tempo de realização das tarefas escolares também deve ser bem administrado pelos docentes, uma vez que o disléxico pode apresentar maior lentidão em formular suas respostas e a processar informações, deve-se oferecer um tempo maior para que o mesmo realize as tarefas propostas.

De acordo com –AND (Associação Nacional de Dislexia) se o disléxico não pode aprender do jeito que ensinamos, temos que ensinar do jeito que ele aprende. É importante então que as práticas pedagógicas sejam reformuladas diante de um aluno disléxico na sala de aula. Deve haver todo um trabalho de adaptação desta criança para que a mesma tenha capacidade de adquirir conhecimentos e de progredir satisfatoriamente suas habilidades acadêmicas.




3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O conceito de dislexia é atualmente interpretado de forma banalizada pela maioria da população brasileira. Não só pelos docentes e profissionais da educação. Pais e familiares muitas vezes não são bem orientados sobre o distúrbio. Essa banalização do que vem a ser dislexia e seus sintomas faz com que muitos educadores, sejam eles pais ou professores, rotulem como dislexia algo que seja apenas uma dificuldade de aprendizagem. E ainda, diante de um caso real de dislexia não são capacitados para lecionar diante as limitações de um individuo disléxico.

Todo esse despreparo diante de um caso real de dislexia faz com que o indivíduo se sinta ainda mais incapaz por não progredir intelectualmente junto a turma em que está inserido, causando também um clima favorável ao preconceito e discriminação. Uma vez que sem saber como trabalhar com o aluno disléxico em sala de aula é comum que o mesmo fique “esquecido”, sem nenhuma interferência pedagógica específica aplicada a seu favor. E diante aqueles casos que não se referem a dislexia, mas são considerados (e não diagnosticados) como tal, a criança tem a tendência a regredir diante da dificuldade encontrada pelo fato também de não receber uma interferência pedagógica adequada.

Uma vez diagnosticado a dislexia, é importante ter consciência do processo de desenvolvimento da linguagem dos seres humanos, bem como o funcionamento do processo de leitura também, uma vez que a dislexia é um distúrbio do campo da leitura. Entender como funciona o cérebro do disléxico também é um conceito de importante para que se possam elaborar práticas pedagógicas de acordo com as necessidades do aluno disléxico para que o mesmo tenha capacidade de se desenvolver intelectualmente.

O desenvolvimento da linguagem é uma característica aquém aos seres humanos e possui para nós não só a função de nos tornarmos aptos a comunicarmos, mas de nos tornamos sujeitos dentro de um contexto sociocultural. É desde o nascimento que as manifestações linguísticas acontecem e possuem um desenvolvimento inato diante de estímulos. Desde o desenvolvimento da linguagem oral até a concretização da escrita há processos pelos quais algumas pessoas não apresentarão sucesso. Os disléxicos são um exemplo. Desde a aquisição oral, os sintomas de dislexia já são visíveis em alguns casos. Porém, é no período entre  6 ou 7 anos, em que as crianças brasileiras estão em processo de alfabetização escolar,  que os sintomas de dislexia são mais evidentes. As habilidades cobradas em cada processo da alfabetização junto ao insucesso do aluno, até então, possivelmente disléxico fará com que pais e docentes busquem uma avaliação multidisciplinar (psicopedagogo, psicólogo, fonoaudiólogo,...) para que o mesmo diante de testes específicos possa receber um diagnóstico adequado.
A leitura é uma capacidade linguística de extrema importância para o desenvolvimento linguístico dos indivíduos. Desde o processo de decodificação das letras à compreensão de um texto.  Durante o processo de aprendizagem e concretização da linguagem podem surgir alguns transtornos que retardam o desenvolvimento de algumas habilidades linguísticas como a leitura e a escrita. dos distúrbios de aprendizagem da área da linguagem é a dislexia. O indivíduo disléxico apresenta dificuldades com habilidades que exijam leitura devido ao funcionamento peculiar do cérebro. 
Apesar de todas as limitações cognitivas que a dislexia causa, uma vez que o indivíduo disléxico é submetido a um sistema de ensino que se adapte as suas dificuldades, lhe proporcionando condições favoráveis de adquirir conhecimentos e de desenvolver suas habilidades linguísticas, este torna-se capaz de desenvolver-se satisfatoriamente em sua vida acadêmica.  
Concluo essa pesquisa bibliográfica a cerca do tema: desenvolvimento linguístico e a dislexia, de forma satisfatória e com um desejo de acrescentar a esses estudos uma verificação prática. Considero ter atingido os objetivos que propus no início do projeto. 



BIBLIOGRAFIA

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http://www.andislexia.org.br/ Acesso em: 1/07/2014

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CONTATO COM A AUTORA 
Stella Maris (stella.letras@hotmail.com)

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[1] American  Speech and Hearing Association (1982), através de http://www.asha.org/docs/html/RP1982-00125.html
[2] Disponível em: http://drauziovarella.com.br/crianca-2/dislexia/
[3] Divulgado em: http://neuropediatria.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=91:dislexia-aspectos-neurologicos&catid=58:dislexia&Itemid=147
[4] Irei focar essa análise apenas sobre a importância da leitura, porém não deve-se descartar a importância da escrita  no desenvolvimento linguístico dos seres humanos, bem como que a dislexia causa consequências negativas no processo de escrita também.  
[5] Léxico: 1 relativo a palavra; lexical. 2 acervo de palavras de uma determinada língua ou us. por um autor em seus textos; vocabulário  vide em Minidicionário da Língua Portuguesa – Evanildo Bechara